domingo, 7 de dezembro de 2008




Aguarelas, 13x18

Alentejo IV



Aguarela, 20x40

Terena



Aguarela, 13x18

sábado, 6 de dezembro de 2008

Ave*

Ontem um pássaro sorriu-me,
Cantando.
Camuflado em seu canto
Ou talvez pelo meu pranto
Não desvendei a sua espécie,
Quem o mandou
Ou mesmo a mensagem que trazia.
Inicialmente apenas retive
Que sorria.
Podia ser chuva, sol ou ventania
Tristeza ou alegria
Ou simplesmente o anuncio de outro dia.
Certo é que sorria
Para meu espanto.

Hoje, tranquilo,
Seguindo o meu trilho invisível
(Mas bem delineado)
Ainda sem o ver
Aceno-lhe sorrindo
Reconhecido
Porque houve chuva, sol e ventania
E tristeza e alegria
E esperança de novo dia.
Será mesmo um pássaro, ou pura alegoria?
(É que eu adoro pássaros,
Por isso me atrevo a imaginar)

-Onde é que eu ía?
-Ah! Já sei! Amanhã…
Não sei!
Ainda não o vi
Nem ele o saberia,
Hoje.
Mas que importa, se é só amanhã?

*Segundo São Lucas, o Anjo Gabriel cumprimentou Maria com a saudação “χαιρε [chaire]”, mais tarde traduzido do grego para o latim como Ave (Maria). Na verdade chaire significa Alegra-te.
“E, entrando o anjo aonde ela estava, disse: Alegra-te, muito favorecida! O Senhor é contigo”. Lucas 1:10

Emigrar

Na profunda gruta do meu ser
Ecoam pingos de esperança
Muitos (quase todos) secam no correr
Alguns resistem ao morrer
E correm, docemente,
em passos de criança.
Percurso condolente,
Límpido destino

Organizado e urgente
Vejo o último bando
Buscando terra quente.
Sentado, observando
No cabo de S. Vicente
Não sei até quando
Permanentemente
Prossigo sonhando
Que também voarei.
Límpido destino…
E não voltarei

Soneto a-mar (a um amigo pescador)

Manhã cedo
O sol repousa ainda, frio
E o homem, firme, ledo
Fez-se à jorna pelo rio.

Navegar, o seu credo,
Um bailado, um desafio.
Chegado agora ao estio
Não lhe resta segredo.

Do seu olhar, de alegria
Como que a lacrimejar
Uma gota escorria

Levando-me a duvidar
Se uma lágrima seria
Ou se seria o mar.

Amanhã, não me acordes

Recordo a imensidão da maré baixa,
Na Meia-praia.
A imensidão das searas d’outrora,
Que alegremente percorri
Ou de vastos milheirais, que já nem há
Onde vastas vezes me escondi,
Sonhando. Sempre sonhando.
Adoro a tranquilidade avassaladora
Que essas imagens me servem
Em bandeja de prata (e guardanapo de linho).
Como me adoro a mim.
Mas eu existo sempre, não a paz.

E às vezes tu vens
Maré-viva,
Ceifeira,
Debulhadora,
E molhas-me as costas que escaldam.
Devastas o trigo.
Descobres-me entre o milho.
Acordas-me.
Mas ainda sonho…

Sonho que um dia daremos as mãos
E correremos na praia, salpicando-nos docemente,
Como docemente se esvairão as nossas pegadas.
O trigo resmalhará à nossa passagem
E um leve trilho restará.
Abrigados no milho,
Faremos uma casa, com telhado.
Para docemente nos amarmos.

Dia de folga

Mal aparece o Sol,
Já duas gaivotas bailam, rodopiando.
Uma multidão sai do cais,
Eu vou andando.
Está frio.
O Tejo verde,
Com um toque de azul, mas pouco.
Observo as pessoas e as tainhas.
Ambas se amontoam,
Penso.
Fixo-me agora nos sons.
O do semáforo, cadenciado
Enriquece a melodia.
Aproveito e atravesso.
Esquivo-me às arcadas evitando a gente que corre
Para atravessar o arco da Rua Augusta.
De imediato recuso dois relógios de ouro.
Reparo que já não me propõem haxixe…
Estou velho.
Estou visivelmente velho.
Dois rapazes vendem bugigangas
Que não compro, nem aprecio,
Mas aproveito o espelho e confirmo a minha idade.
Choro, por dentro.
Nada mais penso até entrar no comboio.
Da janela vejo que aqui são os pombos que imitam as pessoas,
Empurrando-se por migalhas secas de pão.
Amanhã,
Quando regressar,
Perderei (novamente) a consciência
E farei como eles.

Na sala de espera

Na sala cinzenta oiço a Garota de Ipanema.
Sinto-me aconchegado,
Estranhamente confortado entre paredes de betão,
Que normalmente rejeito.
Duvido…
A luz, tímida, permite-me apreciar as paredes.
Alguns quadros, poucos.
Prefiro o negro, em papel manteiga,
Mas agora já não estranho.

Preparo-me para a entrega…
Como se em uma hora pudesse sarar todos os meus males,
Pudesse curar todos os meus pecados,
Como numa simples confissão.
Mas não tenho essa fé,
Aliás nenhuma fé,
Acredito apenas que morrerei.

Não tardarão a chamar-me.

Que pena a vida não ser Bossanova.
Anseio essa suavidade,
Alegre, melódica e sofisticada.
Lamento o Samba, o Fado e o Tango
Da minha vida, é claro,
Penso ainda.

Chamam por mim,
Levanto-me vigorosamente,
Despeço-me de Jobim e avanço.
Penso ainda, uma última vez
No equilíbrio da música
(que não tenho).
Na própria garota,
Na sua pele morena,
No seu riso inocente…

Consciente, avanço.
O chão percorre-me a planta dos pés.
Entro, sento-me e confesso.

O meu bairro

Naquele velho bairro
Chegavam todos à noite
Subiam em sombrios elevadores
Que os deixavam em casa

Em baixo vendiam-se as primeiras doses…

Raramente se cruzavam
Mas ambos sabiam o que era uma gravata.

Sabiam que erravam uns
E os outros
Sabiam que trocavam o confronto pelo conforto
Apenas para alimentar a sua máquina insaciável.

Naquele velho bairro
Sempre a fugir
Raramente se cruzavam
Ainda que partilhando os remédios para os seus males.
E ambos sabiam o que era uma gravata.