Recordo o menino
As caixas de fósforos
Enterros de lágrimas
Assim foi com Rui
O peixinho
(um Beta-macho, lutador)
Crispim, o canário
Que foi a enterrar
Em dia de chuva
Desde pequenino
Respeitou a morte,
O menino
Despede-se hoje
Dum grilo negro (como a culpa)
Que trazia na lapela.
Que o sono lhe seja leve
Que o enleve o destino
(ao menino).
O grilo foi em paz
Que o embala o menino
Agora rapaz
terça-feira, 5 de maio de 2009
Requiem para um grilo
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Carlos
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O frio, o céu e as galinhas
Parte I
Saber se vivo ou sobrevivo…
Ousado, o Hibisco
Insiste em abrir.
Absorve raios de sol
Que eu não encontro
Capacidade intrínseca, a sua
Que eu não partilho
Assim me arrepio
E tapo
Como o céu.
O céu amortece-me do abismo da realidade
Mas não este céu
Parte II
O horizonte desenha-se, azul
No branco puro das nuvens
Que o sol, envergonhado, rasga
Faltam-me as palavras
Que não busco com a mente
Imersa no céu, suspensa
Pardais mendigam migalhas mantendo distância
E repito
Parte III
Uma galinha, em voo rasante
Atravessa o bar do hotel
É a Páscoa, penso
É a galinha, dizem
Apanhei-a, qual herói
(Sempre soube apanhar uma galinha)
Mas isso não sabem eles.
É um saber que
Cedo ou tarde
O destino me levaria a valorizar.
(Amanhã chegam os patos e os coelhos).
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Carlos
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5.5.09
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Poema amor (com Aloé Vera)
Eu quero festejar o mundo
Despertar os mais finos sentidos
Lavar com palavra lugares não percorridos
Celebrar, nos cérebros o mais profundo
Por isso, meus amigos
Vos escrevo este poema (com Aloé Vera)
Porque o salmão sobe os rios
Lutando a vida pela vida
Porque a andorinha viajou
Por amor
As papoilas despontam entre o trigo
Somente, sem orgulhos
Porque o sangue brilha com o ouro
Mas das papoilas
Podeis fazer bailarinas
Entendem o que vos digo?
Nos charcos ecoam rãs
E as malvas não requerem muita água
Minhocas oxigenam a terra
E a passarada que entoa nas manhãs
Com elas se alimenta, sem mágoas
É o curso da natureza
É o mundo a rodar
O dia atrás da noite
Simplesmente, amor
O amor neste poema enriquecido
Formulado em tons de primavera
E segredos do universo
Que quer ser lido em cada verso
Festejado e não esquecido
Por isso, meus amigos, o Aloé Vera
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Carlos
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quinta-feira, 5 de março de 2009
Hoje matei um poema
Hoje matei um poema
O homem perdido no silêncio
Embrulhava-se em palavras
Em frases deformadas.
Exprimia-se o homem
(Não se espremia o poema,
Ou vice-versa.)
Decidiu então que lhe retiraria
A pior das palavras.
Escolheu paixão,
Retirou paixão ao maldito
Que logo começou a ter sentido.
Tirou então carinho
Pois rimava com sozinho
(E não lhe apeteciam rimas).
Entusiasmou-se o homem
E proseguiu retirando
Flor, Amor, Ardor
Hesitou e deixou a dor
Que encaixava com muito rigor.
Nada seria belo,
Naquele poema
Tirou mar, céu e mel
Deixou fígado e fel
Pronomes ficaram caídos
Todos riscou até
Que rasgou o papel
Ficou o eu, sozinho
Amparado na dor
Mudou de estrofe
Repetiu-se o exercício
De fazer justiça
E pondo fim ao dilema
Deixou tudo riscado
Até que deu o poema
Como acabado.
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5.3.09
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sábado, 21 de fevereiro de 2009
7 e 41
Pontualidade
Britânica, ou talvez suiça
Aparelhagem.
Todos os dias, por duas vezes
O relógio parado da cozinha
Dá horas certas.
Não mais, nem menos,
Duas vezes ao dia
O dia bate certo com o relógio.
Pudesse eu mandar no tempo e
Como correria um dia
P´ra estancar no seguinte.
A eterna indecisão entre
A ânsia do futuro
E o medo do passado. Mas
É o tempo quem lidera
E se esconde
Atrás do que já não é. Mas
O relógio parado da cozinha,
Sem passado, nem futuro
Está avariado, o tempo
Só eu, eu vou andando.
Certo é que morrerei
E na cozinha, parado
O relógio
Às 7 e 41.
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21.2.09
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domingo, 15 de fevereiro de 2009
Lide
Semente que germina à lua
Que bebe os prazeres da noite
E se alimenta de orvalho
Raíz que se firma à terra
Ventosas prendem-me à vida
Me sustenho vigoroso
Caule que cresce ao sol
Que endurece sem partir
Sem moleza me vergo
Acenas-me com farpas
Pavoneias com capotes
Aplaudem-te as concubinas
Apruma-te pois nas sortes
Que eu não me deixarei matar
Por um homem de sabrinas
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15.2.09
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A normalidade
O mundo "normal" nos atrai.
Enquanto atrai nos distrai.
E porque nos distrai nos trai.
Se nos deixamos trair, ele nos destrói...
Hermógenes
Gaivotas me cercam neste céu cinzento
Cerceado estou em minha insanidade
Plebeu em corte de felicidade.
No amor busco deslumbramento
‘Inda no mar se atiça a tempestade
Da qual sou só sobrevivente.
Justo me está o fato do lamento
Que antecipo tamanha crueldade.
Em forte resistência padeci
Batalhas penosas que guerreei
Certo como o pouco que vivi
Ser normal, em tudo me tornei.
Alegres loucuras me tomei
Agora tristemente percebi
Dos furacões a que sobrevivi
Nunca liberdade granjeei.
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Carlos
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15.2.09
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Testamento tibetano
Adeus, corpo outrora indigente.
Abutres esfomeados me vigiam
Jaz minha roupa ainda quente.
Em greda escura, cutelos se afiam
No cume assoma-se prudente
Uma alma última vez e me alumia,
De mim se despede na vigília
Para enfim se diluir na outra gente.
Segue o rio rumo à felicidade
Se a trilhos rústicos da vida te forcei
Apenas do amor a saciedade
Ainda antes do regresso à cidade
Onde outrora um dia te encontrei
Reencontrarás beleza e mocidade.
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15.2.09
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Morrer a rir
Era uma vez
Treze homens a uma mesa
Treze garfos
Treze facas de trinchar
Que eu já não conto.
Músicos também treze
Tocam músicas de embalar
A morte.
O cheiro a carne tostada,
Adocicado,
Perturba os treze,
Que debaixo das suas vestes,
Negras e triunfais,
Não resistem aos enjoos
Curvam-se.
Um a um, até treze,
Vomitam angustiados.
Das suas mãos enfraquecidas
Pende o talher.
A rúcula já não é viçosa,
-Como estou quente, penso
E estalo.
Tento mexer-me mas não consigo
Talvez bebesse vinho, se pudesse
Paciência, penso se vedado me está o falar
Em pensamento esboço também um sorriso
Um sorriso de quem assiste ao seu último triunfo
Um sorriso de glória.
Treze, vivos, com medo da morte.
A minha querida morte, que agora os enjoa.
-Mataram-me, agora comam-me! Grito, por dentro.
Lá fora a manhã, cada vez mais cinzenta…
Um canário esvoaça, livre.
E eu arrefeço.
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Carlos
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Amor
Amor.
Peçam-me tudo
Mas não que fale de amor
Que direi eu?
Que “é fogo que arde”?
Que “melhor seria arrancar um braço”?
Peçam-me tudo
Mas não que fale de amor
Mata-se por amor
E morre-se por amor
Sofre-se e Vive-se
Num dicionário vi que amor é“Viva
afeição que nos impele para o objecto dos nossos desejos”…
Desejos…
Tão incompleto seria eu,
Se escrevesse o amor
Sou dos que lêem livros de instruções e digo-vos
Que não é assim o amor
Falasse eu
De lágrimas nos olhos
De um nó na garganta
De um formigueiro no peito
Descreveria o amor?
Escrevesse eu
Do mais belo e horrivel sentimento
Que é o amor.
Escreveria eu amor?
Ousado o pedido
Ousado pedir o amor
Se o amor
É.
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Carlos
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