quarta-feira, 3 de março de 2010

Beijo madrugada

Há um feitiço de lua cheia
Nos teus olhos
E a noite escura sonhada
Em teus cabelos
Mas é nos teus lábios,
Que me querem
Que me perco
E o rio de águas mansas
Corre
Em teu corpo.
Na volúpia dos seixos rolados
Agitam-se freneticamente
Os carvalhos
E (súbito estrondo)
A trovoada
A chuva
Os dedos entrelaçados
E o encontro.

Abraço-me a ti
E sonho a madrugada.

Miragem

Caneta e aguarelas
Papel, muito papel
Passado, pouco
E parti
Sem esperança de outro sol
Mas fui
Por aí.

Quente
Aqui está quente

Tão quente que
Secam minhas lágrimas antes de chegar ao espelho
Tão quente que
Á minha frente treme o destino
Tão quente que
O teu sorriso é agora, apenas uma miragem

Cais

Sem rumo
O mar da emoção
Contida
A força das ondas
Revoltas

Cais

O céu sem Estrela polar
A neblina opaca
A bússola sem Sul
Nem Norte
À sorte

Cais

Evitas a morte
Mas não vais

Credo?

Na verdade
As Coisas sempre existiram
O homem viu o Fogo
E reproduziu-o
O Bronze?
Estranho e Pobre
Seria admitir ao homem a sua criação.
Os Quiriri
Os Pataxó
Sentiam-se sós?
E se tudo isto foi
E se tanto tempo passou
Porque crês ainda
Na inocência do homem?

Cinzas

Se te esquecesses
Dos tempos futuros
Em que tudo é nada…
Saberias tudo

Entretanto
O teu cinzeiro
Fala-me de ti
Apresenta-me a tua insanidade,
Néscio sabedor.
Encontro as palavras
Que não escreves
Os versos que não gritas
Os verdadeiros poemas
Que nunca lerei
E fumo, também
Um cigarro e outro

Se descrevesses
O meu passado
Em que sabia tudo…
Saberias nada

Existência

Entre a depressão
E a realidade
O sonho

Entre a perda
E a conquista
A vã existência

Entre as portas fechadas
E o mar aberto
A insegurança

Entre o que queria ter sido
E aquilo que sou
O peito ferido

Lembro-me do sangue da minha mãe
Com que ainda convivo
Parto por este mundo
Ainda mal parido
E cairei, um dia
Sem a certeza
De algum dia ter nascido

Amar

Amar
Amar, as coisas
A vida, amar
As mulheres
Amar os homens
Amar,
As crianças
Amar, simplesmente
Amar
Mas não ser de ninguém

Amar intensamente,
Descaradamente,
Indecentemente.
Amar incoersívelmente.
Amar a todos e a toda gente.
De uma forma suave, docemente,
De uma forma clara e lealmente,
Amar todos, tudo,
Até o que não é gente,
Amar o mar, o ar e o sol poente
Amar, simplesmente
Amar
Mas não ser de ninguém.

Conchinha e Analyra ( http://tropecosliterarios.blogspot.com )

1 de Setembro de 2009

Mãe
Não te tenho escrito,
Bem sei.
Justifico a ausência
Não estou bem
Lê nesta carta uma urgência
Mãe.

Definitivamente
Não sou da cidade
Passo uma tarde entre o Chiado e o Rossio
E tenho tudo o que quero
A natureza entra morta pelas portas dos fundos
Dos talhos
E em pacotes de leite UHT
Aqui não há mar
Não há amar

Quero gritar, mãe
Ah, como quero gritar
Que o meu sonho morreu
Assim que cheguei à cidade
(Até as estrelas morrem se a avistam)


Os homens mijam à sua volta
Como feras
E vão nos carros a tomar comprimidos
(Dizem que é para não sofrer)

A cidade não abriga o poeta
Não me sacio na cidade

Mãe, dá-me colo
Mãe, dá-me um abraço, dos teus
E devolve-me

A brisa
O sal
O sol
O sul
O brilho
As silhuetas
As serras
As planícies
Os golfinhos
As flores
As mulheres
Os homens
As crianças
As aves
O beijo
O eu,

Este filho que te adora.

Verdade

Ao fundo
Um pescador destemido
Espraiando as suas tristezas
Fala-me da ilusão do homem
De como se sonha forte…

A natureza
Bem mais perto
É o ribombar das ondas
Na pedra escura e dura.

Imponente
O mar
Diz-me a verdade de mim.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Arcturus

Naquela noite
O amor
Eram as velas
E suas valsas ao sopro da brisa

Naquela noite
O amor
Eram os pés
Que se tocavam sem intenção

Naquela noite
O amor
Eram as mãos
Que se embalavam ao toque do vinho

A luz
As mãos
O verde
A valsa
O veludo
O vinho
O branco
As fragrâncias
E lá fora, Arcturus
Eram o amor
Naquela noite